sexta-feira, 30 de junho de 2017
CLUBE DE LEITURA - JUNHO
Ontem, pelas 21 horas, na Biblioteca Municipal, decorreu mais uma sessão do Clube de Leitura para uma conversa informal sobre a obra "Ema" de Maria Teresa Horta.
Trata-se de uma obra que já foi editada em 1984, um romance bem construído, em linguagem poética, que retrata um obsessivo universo feminino, no qual se destaca o amor/paixão/ódio e a loucura.
Narrado de forma circular, em peças soltas, que por vezes, se torna um quebra-cabeças e nos obriga a reler páginas anteriores.
A atmosfera é obscura, silenciosa, cheia de monólogos "gritantes", sobressaindo a violência física e psicológica sobre as mulheres ao longo de gerações, que acreditamos fazer parte de um passado remoto, mas que ainda persiste na atualidade, por muito que nos custe aceitar.
Destacamos este pequeno extrato, que nos dá conta da violência exercida sobre as mulheres nos mais pequenos pormenores:
"Um dia levou consigo o livro que mais a tentara.
- Quem tocou nos meus livros? - perguntou-lhe ele à noite e Ema contou a verdade, olhos baixos como se confessasse um crime, um pecado. O marido olhou-a com estranheza e passou a fechar as estantes à chave.
Primeiro ficou a olhar os livros através dos vidros, cheia de uma nostalgia que a matava, depois atreveu-se a pedir que lhe emprestasse um à sua escolha e ele só respondeu:
- Proíbo-a que leia!
Então conseguiu uma chave falsa e enquanto fingia que bordava escondia o livro entre a toalha, as linhas e as saias se ele se encontrava em casa. Nas horas em que ele não estava devorava livros após livro, de que ia disfarçando o melhor que podia a falta nas estantes. Mas ele não voltara a dar por nada.
Era o único prazer de Ema...
Foi um prazer ler "Ema" e conhecer o universo de Maria Teresa Horta.
quinta-feira, 29 de junho de 2017
segunda-feira, 26 de junho de 2017
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA É O VENCEDOR DO INTERNATIONAL DUBLIN LITERARY AWARD
“É uma alegria grande”, diz José Eduardo Agualusa ao PÚBLICO, a
partir de Dublin, pouco depois de ser conhecida a notícia de que é o
primeiro autor de língua portuguesa a vencer um dos mais prestigiados
prémios literários mundiais, o International DUBLIN Literary Award,
atribuído à edição em inglês do romance Teoria Geral do Esquecimento
(D. Quixote, 2012). "Uma alegria por haver muito bons livros em
competição, porque a atribuição é decidida pelas bibliotecas públicas, o
que me parece excelente, e porque é uma forma de dar visibilidade a
culturas periféricas, já que as obras escolhidas não têm de ser escritas
originalmente em língua inglesa, apenas publicadas em inglês”,
concretizou o escritor.
Criado em 1996, este é, em termos pecuniários, o maior prémio
literário para uma obra de ficção publicada em língua inglesa. São cem
mil euros, montante a dividir entre autor e tradutor (75 mil para o
primeiro, 25 mil para o segundo) quando se trata de uma obra
originalmente escrita noutro idioma. É o caso de Teoria Geral do Esquecimento – A General Theory of Oblivion,
na tradução de Daniel Hahn. “Este é também um prémio para a tradução, e
essa distinção pode ser uma forma de haver mais literatura traduzida
nos países anglo-saxónicos”, refere o escritor, que trabalha com Hahn
desde a tradução de Nação Crioula (D. Quixote, 1997), o seu
sexto romance. “Ele começou a traduzir com os meus livros”, acrescenta o
escritor angolano, sublinhando o trabalho autoral que qualquer tradução
implica, e o acerto de Hahn na criação de “uma voz inglesa” para a sua
obra. “Ele criou uma voz própria a partir da minha. Tive uma sorte
imensa em ter o Daniel”, confessa, notando que será ele a traduzir o seu mais recente romance, A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, que acaba de sair em português pela Quetzal. Daniel Hahn assegurara já anteriormente a passagem a inglês de outras obras do autor. O Livro dos Camaleões, As Mulheres do Meu Pai, Estação das Chuvas e o já referido Nação Crioula.
É a primeira vez que o prémio, criado em 1996, elege um livro
originalmente escrito em português, e a nona vez que distingue uma
tradução. A General Theory of Oblivion concorria com obras do escritor turco (e Nobel da Literatura) Orhan Pamuk (A Strangeness in My Mind, ou Uma Estranheza em Mim, na versão portuguesa), do moçambicano Mia Couto (A Confissão da Leoa,
romance originalmente publicado pela Caminho em 2012 e traduzido para
inglês por David Brookshaw) ou da irlandesa Anne Enright (Man Booker
Prize em 2007), com The Green Road. Dos dez finalistas – que incluíam ainda o vietnamita Viet Thanhn Nguyen (vencedor do Pulitzer em 2016 com The Sympathizer, que a Elsinore acaba de publicar em Portugal com o título O Simpatizante), o austríaco Robert Seethaler (A Whole Life), o norueguês Kim Leine (The Prophets of Eternal Fjord), a mexicana Valeria Luiselli (The Story of My Teeth), a nigeriana Chinelo Okparanta (Under the Udala Trees) e Hanya Yanagihara (A Little Life) –,
Agualusa diz ter lido "apenas o livro do Mia”, de quem é amigo e a quem
ligou imediatamente após a notícia da atribuição do prémio: “Se
pudesse, gostava de ter ganhado com ele."
Um romance do medo
Teoria Geral do Esquecimento acompanha
o destino de Ludovica Fernandes Mano, uma portuguesa que permanece em
Angola após a independência do país, barricando-se no seu apartamento
por 30 anos, ao longo dos quais escreve a sua história nas paredes
de casa. Agualusa ocupou-se do romance, que inicialmente esteve para ser
um argumento cinematográfico, durante dez anos.
“Foi um romance
que teve um início de vida muito difícil em Portugal, mas que depois
recuperou e ganhou visibilidade internacional”, continua Agualusa, que no ano passado foi finalista do Man Booker International com o mesmo romance.
“Fala do medo, do medo do outro. E talvez seja mais actual hoje do que
quando foi escrito”, salienta, referindo o contexto global de medo, que
entretanto deixou de estar circunscrito a alguns países ou territórios e
se generalizou. “Há circunstâncias que fazem com que uma obra seja mais
ou menos falada, recuperada, lida”, acrescenta. Este romance,
reconhece, teve um “percurso imprevisível” que o levou a ser traduzido
em 16 línguas: “Os livros são entidades complexas. Nunca sabemos como
vai ser o seu comportamento. Essa é também a coisa boa dos livros.”
O
júri do prémio destacou por sua vez a habilidade de Agualusa para
transmitir aos seus leitores "compreensão e esperança" a partir de
histórias angolanas que a sua escrita torna universais: "Embora Teoria Geral do Esquecimento se
detenha na fome, na tortura e no assassinato, girando em torno da nossa
capacidade de esquecer, o seu tom e a sua mensagem têm a ver com o
amor. É o amor que redime Ludo [a protagonista, Ludovica Fernandes Mano]
e os outros, é o amor pela paisagem de Luanda que ancora a narrativa em
detalhes idiossincráticos [...]. Ninguém está verdadeiramente sozinho
na colmeia luandense de José Eduardo Agualusa, e também as suas
personagens nos fazem sentir profundamente ligados ao mundo."
O romance de Agualusa foi indicado para o International
DUBLIN Literary Award pela Biblioteca Pública Municipal do Porto, pela
Biblioteca Municipal de Oeiras, pela Biblioteca Demonstrativa Maria da
Conceição Moreira Salles, de Brasília, e pela Gradska Knjiznica, de
Rijeka, na Croácia, que destacaram a forma como o romance equilibra
"elementos-chave da história angolana recente com as vidas de gente
comum", construindo um "caleidoscópio" que retrata magistralmente Angola
e Luanda com toda a sua violência, todo o seu misticismo e toda a sua
loucura, mas também com todo o seu calor".
Natural do Huambo, onde nasceu em 1960, José Eduardo Agualusa junta,
assim, o seu nome a uma lista de premiados que inclui Javier Marías,
Michel Houellebecq, Colm Tóibin, Colum McCann, Herta Müller e o mesmo
Orhan Pamuk que também estava na corrida este ano.
O
International DUBLIN Literary Award é inteiramente financiado pela
cidade, com o objectivo de impulsionar a criação literária de excelência
em todo o mundo.
Fonte:sexta-feira, 23 de junho de 2017
quarta-feira, 14 de junho de 2017
sexta-feira, 9 de junho de 2017
MANUEL ALEGRE VENCE PRÉMIO CAMÕES 2017
O escritor português Manuel Alegre é o
vencedor do Prémio Camões 2017, foi anunciado esta quinta-feira na
Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, após reunião do júri.
"Como
poeta, começou a destacar-se nas coletâneas 'Poemas Livres'
(1963-1965). Mas o grande reconhecimento nasce com os seus dois volumes
de poemas, 'Praça da Canção' (1965) e 'O Canto e as Armas' (1967),
apreendidos pelas autoridades antes do 25 de Abril, mas com grande
circulação nos meios intelectuais", lê-se no comunicado hoje divulgado,
pelo Governo português.
O escritor disse que recebeu a notícia de
atribuição do Prémio Camões, com "serenidade e alegria", considerando
que o reconhecimento maior é o que vem de quem o lê.
Em
declarações à agência Lusa, o escritor referiu que lhe dá "particular
satisfação", a atribuição do prémio, até porque Luís de Camões é um dos
poetas que aprecia, e lembrou que reeditou recentemente o seu livro
"Vinte Poemas para Camões".
"O meu reconhecimento maior é o que
vem dos meus leitores através dos tempos, vencendo várias formas de
censura. Naturalmente, uma distinção desta natureza tem o significado
que tem", disse á Lusa Manuel Alegre, de 81 anos.
O escritor
recordou igualmente ter recebido o Prémio Pessoa, o que lhe deu "grande
satisfação", por ter também "um grande significado cultural".
Esta
é a 29.ª edição do Prémio Camões e o júri foi constituído por Paula
Morão, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa, Maria João Reynaud, professora associada jubilada da Faculdade
de Letras da Universidade do Porto, Leyla Perrone-Moisés, professora
emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo, José Luís Jobim, professor aposentado da
Universidade Federal Fluminense e da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Lourenço do Rosário, reitor da Universidade Politécnica de
Maputo e pelo poeta cabo-verdiano José Luís Tavares.
O Prémio
Camões, instituído pelos Governos de Portugal e do Brasil, em 1988, foi
atribuído pela primeira vez em 1989, ao escritor português Miguel Torga.
Segundo
o texto do protocolo constituinte, assinado em Brasília, a 22 de junho
de 1988, e publicado em novembro do mesmo ano, o prémio consagra
anualmente "um autor de língua portuguesa que, pelo valor intrínseco da
sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património
literário e cultural da língua comum".
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Manuel Alegre,
Prémio Camões 2017
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